Exame de sangue ocultoO que é a pesquisa de sangue oculto e qual a sua importância?

A pesquisa de sangue oculto é um exame laboratorial que tem como objetivo identificar a presença de sangue nas fezes em virtude de hemorragias de graus variados do aparelho digestivo, que podem ser causadas por algo tão insignificante como uma pequena irritação da mucosa intestinal ou por algo mais grave como um cancro ou cânceres no trato gastrintestinal.

Situações clínicas como hemorróidas, fissuras no reto ou ânus e diverticuloses podem ser responsáveis pelo encontro de sangue nas fezes. No entanto, é importante salientar que as fezes podem adquirir coloração avermelhada devido à alimentação ou escurecida devido à ingestão de vitaminas contendo ferro e medicamentos à base de salicilato de bismuto.

O câncer colo-retal (CCR), por exemplo, é uma doença maligna capaz de acometer indivíduos de ambos os sexos, sendo curável em até 97% dos casos quando diagnosticado precocemente. Em geral, esse câncer não provoca sintomas, exceto em estágios avançados, por vezes já tendo se disseminado para outros órgãos do organismo (metástase). Os sintomas mais comumente associados ao CCR são a perda de peso inexplicável, modificações dos hábitos de evacuação, modificação no formato das fezes, ou seja, fezes mais finas que o usual, obstipação intestinal ou diarréia, tenesmo (sensação de que o intestino não está completamente esvaziado), cólicas, gases e distensão abdominal, cansaço constante, vômitos e eliminação de fezes gordurosas e/ou sanguinolentas, com tonalidade avermelhada ou escurecida, situação definida como melena.

Em muitas ocasiões a concentração de sangue eliminado é tão pequena que somente exames laboratoriais são capazes de detectá-lo. Muitos pacientes não apresentam qualquer sintoma até que o tumor já esteja em estágio avançado, daí a importância da realização de exames laboratoriais de triagem, como a pesquisa de sangue oculto.

A sobrevida global em cinco anos varia de 40% a 50%, não sendo observadas diferenças entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. Esse relativo bom prognóstico faz com que o CCR seja o terceiro tipo de câncer mais prevalente em todo o mundo, com aproximadamente 2,4 milhões de pessoas vivas diagnosticadas com essa neoplasia. A mortalidade por esse câncer permaneceu inalterada nos últimos 50 anos a despeito dos avanços obtidos em diagnóstico e tratamento. A maior incidência dos casos ocorre na faixa de 50 a 70 anos, mas as possibilidades de desenvolvimento da doença aumentam a partir dos 40 anos.

Outros fatores de risco estão associados ao desenvolvimento do CCR, como o histórico familiar de câncer de cólon e reto, histórico pessoal pregresso de câncer de ovário, endométrio ou mama ou de doenças inflamatórias do cólon, como a retocolite ulcerativa crônica e a doença de Cronh, dieta com alto conteúdo de gorduras animais, carne e baixo teor de cálcio, baixa ingesta de frutas, vegetais e cereais, obesidade, sedentarismo e ainda o consumo de álcool e tabagismo. A prática de atividade física regular está associada a um baixo risco de desenvolvimento da doença.

A maioria dos tumores evolui a partir de pólipos adenomatosos (pequenos tumores benignos derivados de glândulas intestinais) que se desenvolvem na membrana mucosa do intestino grosso. Os pólipos do tipo viloso (achatados) têm um maior potencial para malignidade. Quanto maior o pólipo, mais perigoso (especialmente acima de 2,5 cm). A evolução do pólipo até o estágio de câncer leva em média 5 a 10 anos e a sua detecção precoce é possível através da pesquisa de sangue oculto nas fezes, já que sangram em quantidades tão pequenas que não são visíveis a olho nu.

É importante lembrar que a maioria dos pacientes que possuem resultado positivo nesse exame não está com câncer. O teste é indicado para encontrar sangue, mas não indica a causa do sangramento nem de que região do trato gastrintestinal é proveniente. Dessa forma, o paciente deverá realizar testes de imagem, como a colonoscopia ou a retossigmoidoscopia, para visualizar o interior do intestino e verificar a possível presença de pólipos ou tumores.


Como o exame é realizado?

O exame consiste na pesquisa de pequenas quantidades de sangue preferencialmente em três amostras fecais, coletadas pelo paciente em coletores descartáveis. É um método simples, não invasivo e de baixo custo, o qual pode ser realizado por diversas metodologias disponíveis no mercado, tendo por base os efeitos catalíticos dos compostos do grupo heme sobre a oxidação de substâncias orgânicas como a benzidina e o guáiaco ou através de ensaios imunocromatográficos.

Dos produtos de desdobramento da hemoglobina, somente a hematina possui atividade de peroxidase, como também a mioglobina e algumas enzimas vegetais. É sabido que a ingestão de carne na alimentação ou de vegetais pode acarretar pequena atividade de peroxidase, podendo ocasionar resultados falso-positivos, o que não ocorre quando a pesquisa é realizada pelos ensaios imunocromatográficos.

Sendo assim, sangramento gengival, epistaxes (hemorragia nasal), alimentação e a utilização de alguns medicamentos podem influir no resultado do exame, dada a grande sensibilidade das provas. A cor das fezes pode orientar sugestivamente, mas não de modo absoluto. Dejeção negra ou semelhante à borra de café (melena) indica hemorragia alta, gástrica ou duodenal, quando superior a 50 ml de sangue. Quando as fezes apresentam aspecto normal e encontram-se coradas de vermelho-rutilante, supõe-se sangramento hemorroidário, sem excluir lesões de cólon ou pontos mais distantes.


1. Reação de Benzidina

O princípio da técnica baseia-se na decomposição da água oxigenada (peróxido de hidrogênio) pela atividade da peroxidase do sangue. O oxigênio liberado oxida a benzidina, formando um composto de cor azul ou verde. Se presentes, remover as gorduras das fezes com éter, pela possibilidade de resultados falso-positivos.

A metodologia consiste em espalhar uma pequena quantidade de fezes sobre um papel de filtro de boa qualidade, gotejando 2 ou 3 gotas de água oxigenada sobre o mesmo. Adicionar igual volume de solução de benzidina, observando o desenvolvimento de cor.


Interpretação do exame

• Sem desenvolvimento de cor: reação negativa;
• Coloração esverdeada: traços de sangue;
• Coloração verde-clara: +;
• Coloração verde-escura: ++;
• Coloração verde-azulada: +++;
• Coloração azul: ++++.

 

Reagentes

Peróxido de hidrogênio a 3%
Solução de benzidina
Ácido acético glacial 25 ml
Benzidina em pó (especial para sangue) 5 g
Deixar em repouso por uma noite e filtrar; acondicionar em frasco âmbar. É importante limpeza rigorosa da vidraria, pois resíduos de detergentes podem falsear os resultados.

 

2. Reação de Meyer-Johannesen

O princípio desta técnica baseia-se na redução da fenolftaleína pelo zinco a anidrido ftálico, que, oxidado pela água oxigenada, desprende oxigênio pela ação do sangue, transformando-se novamente em fenolftaleína, assumindo uma coloração avermelhada no meio alcalino.

A metodologia consiste em realizar uma suspensão de fezes de aproximadamente 5%; transferir 5 ml da suspensão para um tubo de ensaio e adicionar 1 ml de reativo de Meyer-Johannesen. Inverter várias vezes e acrescentar 3 a 4 gotas de água oxigenada.

 

Interpretação do exame

A positividade da reação é considerada quando uma coloração vermelha é desenvolvida imediatamente após a realização do ensaio.


Reagentes

Peróxido de hidrogênio a 3%
Solução de Meyer-Johannesen
Fenolftaleína 2 g
Hidróxido de potássio anidro 20 g
Água destilada q.s.p. 100 ml

Aquecer os reativos até a fervura, acrescentando de 10 a 30 g de zinco em pó até descoloração completa. Filtrar e acondicionar em frasco âmbar, com um pouco de zinco em pó, no fundo do frasco.

 

3. Reativo de Guáiaco

O princípio desta técnica baseia-se na oxidação do complexo guáiaco e desenvolvimento de um composto de coloração azul.

A metodologia consiste em realizar um esfregaço das fezes em um papel de filtro, gotejando 2 a 3 gotas de ácido acético glacial e 2 a 3 gotas de uma solução preparada recentemente de álcool etílico, saturado com goma guáiaco em pó. Adicionar igual quantidade de peróxido de hidrogênio a 3%. Misturar com um bastão de vidro e observar o desenvolvimento de coloração ao fim de cinco minutos. É conveniente realizar paralelamente um controle negativo e outro positivo para validar os exames dos pacientes.

 

Interpretação do exame

A positividade da reação é considerada quando uma coloração azulada é desenvolvida. Uma coloração esverdeada é indicativa de reação negativa.

 

Reagentes

Peróxido de hidrogênio a 3%
Solução de guáiaco
Álcool etílico a 95%
Goma guáiaco em pó

Pulverizar e agitar até saturação; preparar somente no momento do uso.

 

4. Imunocromatografia

O teste de imunocromatografia utiliza a combinação de anticorpos monoclonais conjugados e anticorpos policlonais anti-hemoglobina humana de fase sólida, com elevada especificidade e sensibilidade. Em virtude da utilização de anticorpos específicos para a hemoglobina, não há necessidade de realização de dietas, já que os anticorpos reconhecem somente a molécula de hemoglobina (sangue). A hemoglobina presente nas fezes liga-se ao anticorpo monoclonal, formando um complexo estável, o qual flui pela área adsorvente do kit e se liga aos anticorpos policlonais na área de reação positiva, surgindo uma banda com coloração rosa-clara (teste semelhante ao de gravidez comercializado pelas farmácias e drogarias). Na ausência da hemoglobina, não haverá o desenvolvimento de banda na área de reação, indicando resultado negativo.


Quem deve realizar o exame?

A pesquisa de sangue oculto deve ser realizada por homens e mulheres a partir dos 40 anos, com periodicidade anual ou a critério médico. Indivíduos que possuem histórico familiar de câncer colo-retal, especialmente os parentes de primeiro grau, como pai, mãe e irmãos, devem realizar anualmente o exame independente da idade que possuam. Caso o exame seja positivo, deve-se proceder à colonoscopia para localizar o motivo do sangramento.


Informações úteis aos pacientes

A pesquisa de sangue oculto deve ser realizada em amostras fecais recentemente emitidas. A análise de três amostras aumenta a sensibilidade do exame, já que algumas lesões possuem sangramentos intermitentes. Caso o exame não seja realizado por meio de ensaios imunocromatográficos, os pacientes deverão ser submetidos a uma dieta rígida, com restrição da utilização de alguns medicamentos ou vitaminas que poderão interferir nos resultados do exame, ocasionando, muitas vezes, resultados falso-positivos e preocupações desnecessárias. Os principais interferentes são alguns tipos de carne (principalmente a vermelha), nabos, rabanetes, vitaminas (particularmente a vitamina C), ferro, ácido acetilsalicílico e outros anti-inflamatórios não esteroidais, como o ibuprofeno, utilizado no tratamento da artrite reumatóide e outras doenças inflamatórias. Até mesmo a utilização de cremes dentais clorofilados pode favorecer resultados errôneos. O consumo desses interferentes deve ser suspenso em três a cinco dias previamente à coleta da amostra.

Carne branca (peixe e frango), enlatados, pipoca, amendoim e farelos de cereais (trigo e aveia) podem ser consumidos em pequenas quantidades. Já os demais vegetais (crus ou cozidos), alface, espinafre, milho e frutas como uvas, ameixas e maçãs podem ser consumidos livremente.

Caso o procedimento seja realizado por meio de ensaios imunocromatográficos, não há necessidade da realização de dietas nem de restrição ao consumo de medicamentos e outros interferentes, já que utilizam uma metodologia que não sofre interferência dos mesmos.

 

Considerações importantes

A colonoscopia examina toda a extensão do intestino. Todos os pólipos encontrados serão retirados durante o procedimento, já que 90% deles podem ser removidos sem dor e com segurança, sendo posteriormente analisados microscopicamente por médicos patologistas. Caso algum tumor seja encontrado, uma biópsia será realizada. Lembre-se que, quanto mais cedo o câncer for encontrado, maior será a chance de cura.

A prevenção é a melhor forma de evitar o desenvolvimento de câncer colo-retal. Portanto, todos se beneficiam ao realizar a pesquisa de sangue oculto anualmente. Aliado a esse fato, um estilo de vida saudável através da realização de atividades físicas regulares, dieta rica em fibras (vegetais, frutas e saladas), com menor ingestão de carnes, manutenção do peso adequado para a idade do paciente (estipulado pelo cálculo do Índice de Massa Corporal, o IMC), o consumo moderado de bebidas alcoólicas e a não-utilização do fumo contribuem para uma vida mais saudável.

 

Referências

1- BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Instituto Nacional do Câncer. Coordenação de Prevenção e Vigilância. Estimativa 2006: Incidência de Câncer no Brasil. 94p.il. Rio de Janeiro: INCA, 2005.

2- BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Instituto Nacional do Câncer. Coordenação de Prevenção e Vigilância de Câncer. Estimativas 2008: Incidência de Câncer no Brasil. 94p.il. Rio de Janeiro: INCA, 2007.

3- HARDCASTLE, J. D.; CHAMBERLAIN J. O.; ROBINSON, M. H.; MOSS, S.M.; AMAR, S. S.; BALFOUR, T. W.; JAMES, P. D.; MANGHAM, C. M. Randomised controlled trial of faecal-occult-blood screening for colorectal cancer. Lancet, 348 (9040): 1472-7, 1996.

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6- MOREAUX, J.; CATALÃ, M. Carcinoma of the colon: long-term survival after surgical treatment in a series of 798 patients. World J Surg, 11 (6): 804-9, 1987.

7- SCHOENFELD, P.; CASH, B.; FLOOD, A.; DOBHAN, R.; EASTONE, J.; COYLE, W.; KIKENDALL, J. W.; KIM, H. M.; WEISS, D. G.; EMORY, T.; SCHATZKIN, A.; LIEBERMAN, D.; CONCERN STUDY INVESTIGATORS. Colonoscopy screening of average-risk women for colorectal neoplasia. N Engl J Med, 352 (20): 2061-8, 2005.

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9- VALLADA, E. P. Manual de Exames de Fezes - Coprologia e Parasitologia. Atheneu, Rio de Janeiro, 1993.

 

 

Fred Luciano Neves Santos é Farmacêutico-Bioquímico formado pela Universidade Federal da Bahia; Especialista em Tópicos Avançados em Diagnóstico Laboratorial pela Universidade Federal da Bahia; Mestre em Patologia Experimental pela Universidade Federal da Bahia.

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